Manhã cinzenta na cidade da cor. Percorro as ruas da cidade, como uma alma a vaguear. Vislumbro ao longe um bando de cães a vasculhar restos de comida putrefactos. Após uma silenciosa e extensa caminhada, chego finalmente ao estúdio, reparo que sou o primeiro a chegar, preparo tudo para que quando eles chegarem se sintam melhor do que eu quando aqui entrei e senti o frio a congelar-me o sangue nas veias. O primeiro a chegar é o Ray. Tivemos uma conversa agradável, convidou-me a ouvi-lo tocar no seu piano. Os seus dedos deslizavam e de repente... zás, lá ia uma tecla para baixo e parecia que as teclas do piano tinham sido moldadas para os seus dedos. A melodia adocicou os meus ouvidos, tal qual o mel o faz com os meus lábios. Totalmente psicadélico. Antes do Ray terminar, chegou o Robby, como sempre, vem pensativo e ausente, senta-se no sofá do estúdio, e agarra uma folha branca de onde surgirá, de entre os rabiscos horriveis, uma música belíssima. O John é o terceiro a chegar bebe um copo de tinto, senta-se ao lado do Robby e mesmo sendo supérfluo ele tenta ajudar o Robby com a sua música. Passados 30 minutos chega finalmente o Jim. Vem com um ar apático, resultado de uma noite de bebedeira. Já todos o avisámos sobre a sua triste sina, mas ele já nem liga ao que dizemos, perdemos o nosso parceiro para o álcool. Começou o ensaio, o som percorre todo o estúdio, enchendo-o de vida, magia, alegria... Não estávamos à espera, mas dos escombros surge o velho Jim com a sua feiticeiresca voz. Ficámos vidrados nele, quase que o tempo parou e nos arrastava na sua paragem, mas tivemos auto-controlo suficiente para aguentar e não nos deixámos ir abaixo. O tempo voou e a luz do dia é engolida pela escuridão da noite. O Robby lembrou-se do motivo que o fizera vir pensativo para o ensaio: não deu comida ao seu peixe dourado de manhã. Despediu-se apressadamente e com uma certa confusão à mistura. O John sucedeu-o partindo também numa aventurosa caminhada pela escuridão assombrosa que nos rodeava.
O Ray convidou o Jim para ir jantar com ele lá a casa, e enquanto a indecisão do Jim ia surgindo e aumentando, o Ray ia ficando com cada vez menos esperanças no SIM. Sim! - disse o Jim num ruído seco. Ao ver aquilo fiquei perplexo. O Ray também me convidou mas eu optei pelo NÃO, eles iam reviver os tempos da UCLA e eu não queria incomodá-los. Despedi-me deles e saí do estúdio. O cinzento que pintava as ruas de manhã, dera lugar ao negro da noite, que me penetrava nos olhos. Os cães diminuíram? Não, pelos vistos não eram os cães, eram ratazanas no seu imundo paraíso.
Cheguei finalmente a casa, exausto, comi algo que me aqueceu o estômago, despi-me, deitei-me sobre a cama, que tinha ficado por fazer, e aqui estou eu a escrever o meu diário mais uma vez, mais uma página...
Mike Gordon
Emanuel Melo
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